Serviço de Radioterapia: 60 anos de pioneirismo e cuidado especializado
Publicado 29 de October de 2025
O Serviço de Radioterapia do Hospital Santa Rita, da Santa Casa de Porto Alegre, celebrou 60 anos em 2025 com uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela consolidação de práticas que ajudaram a moldar o tratamento do câncer no Rio Grande do Sul. Desde os seus primórdios, quando os recursos eram limitados e a radioterapia ainda dava seus primeiros passos como especialidade, até os dias atuais, com tecnologia de ponta e equipes multiprofissionais altamente qualificadas, o Serviço sempre foi guiado por um mesmo princípio: oferecer tratamento humano e de excelência aos pacientes.
“Celebrar 60 anos de existência é, acima de tudo, um tributo à perseverança, ao conhecimento e à dedicação de gerações. O Serviço de Radioterapia do Hospital Santa Rita chega a esta marca com uma história que se confunde com a própria evolução da oncologia no Estado. São seis décadas de compromisso com a ciência, com o cuidado e, sobretudo, com a vida”, destaca o médico radioncologista Neiro Waechter da Motta, chefe do serviço há 36 anos.
Na foto, registro da inauguração do Acelerador Linear Clinac 600 em dezembro de 1993. Dr. Neiro Motta, primeiro a esquerda, acompanhado do Diretor Administrativo da Santa Casa da época, Olimpio Dalmagro, do Diretor Médico do Hospital Santa Rita, Dr. Sérgio Azevedo, e do Diretor Geral da Santa Casa, Dr. João Polanczyk.
Em entrevista, o médico destaca os principais marcos dessa trajetória e projeta o futuro da especialidade. Confira:
1) O que representa celebrar as seis décadas do Serviço de Radioterapia?
Representa honrar a visão de profissionais que acreditaram que a radioterapia seria uma das mais importantes ferramentas no enfrentamento do câncer. É também celebrar uma trajetória que se confunde com a própria história da oncologia no Rio Grande do Sul, marcada pela evolução da ciência, pela incorporação de tecnologias, pela qualificação contínua das equipes e, sobretudo, pela confiança de milhares de pacientes e familiares que buscaram aqui esperança em momentos de grande fragilidade.
É, ainda, reconhecer a missão institucional da Santa Casa como elemento decisivo para que essa caminhada se mantivesse firme, mesmo diante de desafios históricos da medicina. Hoje, esses 60 anos são um convite para projetar o futuro com a mesma coragem que impulsionou o passado.
2) Como foi a origem do Serviço e como era a realidade do tratamento oncológico naquele período?
O embrião do Serviço surgiu em 1941, quando foi criada a Clínica de Câncer, ainda no Hospital São Francisco. Naquele tempo, o câncer ainda era uma doença cercada de estigma, e o diagnóstico, em geral, acontecia em estágios avançados, já que não havia tomografia, ressonância ou exames laboratoriais sensíveis. Por muito tempo, a cirurgia foi considerada o principal tratamento curativo. Predominavam as abordagens amplas e radicais, como a mastectomia de Halsted e extensas ressecções abdomino-perineais, baseadas no entendimento de que o tumor se espalhava continuamente pelos tecidos locais.
Na época, a radioterapia já era um dos pilares do tratamento, mas utilizava recursos bem mais simples, como equipamentos de telecobaltoterapia, que utilizavam uma fonte radioativa de Cobalto-60. Era quase uma técnica artesanal: ainda não existia tomografia computadorizada, o planejamento era manual, os campos eram definidos com base em radiografias e marcadores externos, e a precisão era muito limitada.
O marco decisivo da nossa história ocorreu em janeiro de 1965, quando o Serviço de Radioterapia passou a contar com estrutura própria, com uma Unidade de Telecobaltoterapia e equipamentos de radioterapia convencional. Em 1967, com a inauguração do Hospital Santa Rita como unidade especializada em oncologia, o Serviço se integrou à nova estrutura assistencial, fortalecendo sua atuação e ampliando as chances terapêuticas dos pacientes.
3) Quem foram os idealizadores desse projeto assistencial e os principais desafios da época?
Nomes como o Dr. Antonio Barletta, o Dr. Aroldo de Paiva Ferreira Braga e o Dr. Paulo Roberto Vauthier de Souza foram os grandes idealizadores e pioneiros. Movidos pela convicção de que a Santa Casa precisava oferecer um tratamento completo aos pacientes com câncer, eles romperam barreiras técnicas e culturais para trazer ao RS métodos que estavam surgindo no mundo.
Nos anos iniciais, as dificuldades iam desde limitações tecnológicas e diagnósticas até a necessidade de construir uma cultura de cuidado multidisciplinar. Faltavam profissionais especializados, protocolos consolidados, infraestrutura adequada e acesso amplo aos tratamentos. Mesmo assim, a equipe superou cada obstáculo com inovação e trabalho colaborativo, formando gerações de especialistas e garantindo acesso a tratamentos de ponta.
4) Quais marcos tecnológicos ajudam a contar essa história de pioneirismo?
A história do Serviço de Radioterapia é marcada por uma sucessão de avanços tecnológicos que o colocaram entre os mais modernos do país. Em 1973, foi instalado o primeiro acelerador linear do Sul do Brasil, um marco que ampliou a precisão e a segurança dos tratamentos.
Nas décadas seguintes, o Serviço manteve-se pioneiro na incorporação de técnicas como a radioterapia tridimensional, a modulação da intensidade do feixe (IMRT), a radioterapia guiada por imagem (IGRT) e a braquiterapia de alta taxa de dose (BATD). Essa evolução tecnológica garantiu aos pacientes acesso a tratamentos equivalentes aos oferecidos nos melhores centros internacionais.
5) Como começou sua trajetória no Serviço?
Eu comecei a frequentar a Santa Casa em 1969, ainda como estudante da Escola de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1970 iniciei estágio na Radioterapia, a convite do Dr. Antonio Barletta, e encontrei ali meu propósito profissional. Em 1975 passei a integrar o corpo clínico como radioncologista e, em 1989, assumi a chefia do Serviço. Desde então, pude acompanhar importantes transformações: das antigas bombas de cobalto à integração com inteligência artificial, da visão centrada exclusivamente no tumor à centralidade plena no paciente.
6) Qual é a dimensão do Serviço hoje e qual o impacto no Rio Grande do Sul?
Atualmente, o Serviço de Radioterapia do Hospital Santa Rita é um dos maiores e mais completos do Brasil. Somente em 2024, foram 3.779 novos pacientes atendidos, sendo a mais de 60% do sexo feminino, o que se reflete no perfil dos tumores mais frequentes em tratamento: em primeiro lugar, o câncer de mama, seguido pelo câncer de próstata e pelo câncer de colo de útero.
O Serviço é referência para praticamente todos os municípios do RS e também recebe pacientes de estados vizinhos. No sistema público, 31% de todos os pacientes do SUS no Rio Grande do Sul que necessitam de radioterapia são tratados na Santa Casa. Esses números reforçam o papel estratégico da instituição na rede oncológica do Estado.
7) É também um centro de formação reconhecido internacionalmente, certo?
Sim. Desde 1981, o Serviço é pioneiro na formação de especialistas em radioterapia no Sul do Brasil. Em 2010, tornou-se Centro de Formação da Agência Internacional de Energia Atômica, qualificando radioterapeutas de países africanos de língua portuguesa.
Além da residência médica em parceria com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), o Serviço recebe estagiários e pesquisadores de diferentes áreas da saúde, transmitindo não apenas conhecimento técnico, mas também uma cultura de cuidado que marca a Santa Casa.
8) Quais diferenciais posicionam o Serviço entre as grandes referências do país?
O principal diferencial é a capacidade de unir alta tecnologia e sensibilidade humana. O Serviço trata todos os tipos de tumores com radioterapia externa ou braquiterapia, dominando técnicas avançadas, sempre com atenção integral ao paciente. Essa combinação de excelência técnica, integração multiprofissional e dedicação ao ensino mantém o Hospital Santa Rita entre as principais referências do país.
9) Sobre o cenário nacional, quais os grandes desafios da radioterapia?
Ao olharmos para o cenário público brasileiro, percebemos que os avanços tecnológicos convivem com uma realidade desigual no acesso. Muitas regiões ainda não dispõem de equipamentos modernos, como aceleradores lineares e sistemas de planejamento computadorizado, o que obriga milhares de pacientes a viajar longas distâncias para receber tratamento. A jornada assistencial ainda não é homogênea e a integração entre atenção básica, diagnóstico e terapia oncológica avançada segue como um ponto sensível.
Outro desafio relevante é a escassez de profissionais especializados. A radioterapia exige equipes altamente qualificadas, e o ritmo de formação de radio-oncologistas, físicos médicos, dosimetristas e tecnólogos não acompanha a demanda crescente. Além disso, o constante avanço tecnológico demanda capacitação contínua. Ainda, existe um desafio importante que envolve o suporte multiprofissional (psicologia, social, nutricional e fisioterápico) para pacientes em radioterapia, além da necessidade de um olhar mais atento à radioterapia paliativa, que é extremamente eficaz para controle da dor e sintomas.
10) Como imagina o Serviço de Radioterapia da Santa Casa nos próximos anos?
Vejo um futuro que preserva a essência do Serviço: excelência tecnológica e humanística plenamente integradas. Nos próximos dez anos, será possível integrar radioterapia com biologia tumoral e inteligência artificial, permitindo que cada tratamento seja modelado segundo as características genéticas do tumor e as respostas individuais do paciente ao longo de toda a terapia.
A radioterapia adaptativa em tempo real deixará de ser exceção e se tornará rotina, com ajustes de dose feitos sessão a sessão, à medida que o tumor se reduz ou que a anatomia do paciente se modifica durante o tratamento. A precisão será ainda maior, realizando terapias mais curtas, menos invasivas e com toxicidade consideravelmente reduzida. A inteligência artificial estará embarcada diretamente nos aceleradores lineares, otimizando processos, aumentando a segurança e trazendo maior previsibilidade aos resultados clínicos.
Mas, acima de tudo, o que continuará sustentando o Serviço será o mesmo princípio que o originou: a combinação entre ciência, tecnologia e cuidado humano, garantindo que o futuro seja construído por pessoas éticas e comprometidas com a vida.
Texto e entrevista: Vinicios Sparremberger / Santa Casa de Porto Alegre
Imagem: Arquivo CHC / Divulgação
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